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Primeiro, foi a indústria. Agora, as empresas de software
querem aumentar a produtividade e, principalmente, reduzir
as falhas em seus produtos
Os senhores voariam em meus aviões se eles tivessem a mesma
confiabilidade que um sistema de informática?" A pergunta
formulada por William Boeing, fundador da maior fabricante
de aviões do mundo, feita no começo dos anos 50, reflete
bem o descrédito em relação aos programas de computador
existentes naquela época. Hoje, os aviões não apenas são
construídos mas voam graças a sistemas computacionais que
não podem falhar -- afinal, não dá para imaginar a hipótese
de o piloto olhar para o co-piloto com cara de espanto,
dizendo: "Xi, deu pau".
No entanto, meio século depois, a frase de Boeing poderia
ser aplicada por executivos de muitos outros setores da
economia, que ainda sonham com o dia em que seus sistemas
corporativos serão tão confiáveis quanto os usados em aviões.
A maior parte da indústria tecnológica permanece bem longe
dos rígidos padrões de qualidade estabelecidos pelo setor
aeronáutico. Cerca de 55% de todo trabalho realizado pela
área de desenvolvimento de software de uma empresa é destinado
à correção de erros detectados em sistemas já em funcionamento.
Na prática, tais sistemas são consertados em pleno vôo.
A estimativa é do Instituto de Engenharia de Software (SEI),
órgão criado pelo Departamento da Defesa americano e operado
na prestigiada Universidade Carnegie Mellon.
Não é à toa que as empresas destinam tantos esforços às
correções. A produção de software está entre as atividades
mais artesanais do planeta. Programadores trabalham basicamente
com criatividade. São uma espécie de artistas high tech
e, como todo artista, não costumam seguir regras de produção.
Embora os principais avanços tecnológicos dos últimos 50
anos tenham sido fruto de fagulhas de inspiração, é preciso
muito trabalho cerebral para transformá-las em código de
computador. E é aí que mora o perigo. "A questão não é limitar
a criatividade de quem cria e escreve os programas", diz
Juliana Herbert, doutora em qualidade de software da Universidade
do Vale do Rio do Sinos (Unisinos), de São Leopoldo, no
Rio Grande do Sul. "É preciso ter método."
A solução para isso é a criação de modelos que se transformem
em certificados de qualidade. Na indústria do software,
o mais conceituado deles é o CMM (Capability Maturity Model,
algo como modelo de maturidade da capacidade de desenvolvimento).
Sua criação, não por acaso, está ligada à indústria da aviação.
Na década de 80, quando a informática começou a chegar aos
aviões, a Força Aérea Americana criou uma avaliação dos
fornecedores de software. Foi desse trabalho que surgiu
o certificado de qualidade CMM, emitido pelo SEI.
Além dos Estados Unidos, a certificação CMM foi amplamente
adotada na Índia, hoje um grande pólo exportador de tecnologia,
e vem chegando com força total ao Brasil. Até agora, apenas
13 empresas brasileiras conseguiram a certificação, mas
praticamente toda indústria de software tenta enquadrar-se
nessa espécie de ISO tecnológico (veja quadro acima). Nesse
estágio está a subsidiária da Dell Computers, além das nacionais
Datasul e Vesta. No Rio Grande do Sul e em Minas Gerais,
algumas empresas estão trabalhando em grupo para baratear
os custos da consultoria necessária à implantação do padrão.
"As empresas querem o CMM porque têm de resolver um problema
cultural dessa área: os estouros de prazo e orçamento",
afirma a gaúcha Juliana Herbert, diretora do ESICenter.
Ligado ao Instituto Europeu de Software, equivalente ao
SEI americano, o ESICenter está instalado na Unisinos, na
Grande Porto Alegre. Ao lado das poucas empresas brasileiras
que dão consultoria para a implantação do CMM, apenas o
ESICenter e a subsidiária da empresa americana ISD são autorizadas
a aplicar as avaliações do certificado.
Trabalhar dentro do padrão CMM significa seguir um guia
que estabelece passos que visam aumentar a produtividade
e eliminar -- ou, pelo menos, minimizar -- a existência
dos defeitos no fim do desenvolvimento. Para a Orbitall,
empresa controlada por Citibank, Itaú e Unibanco, funcionou.
Especializada em tecnologias e serviços do setor financeiro,
como todo processamento dos cartões Credicard, a empresa
diminuiu em 70% os atendimentos de interrupção de sistemas
(o que pode significar, entre outras coisas, aquela situação
chatíssima em que, na hora de pagar a conta do jantar com
o cartão de crédito, o garçom volta do fundo do restaurante
dizendo que o sistema está fora do ar).
Um dos capítulos principais do CMM é o estabelecimento de
critérios claros para a documentação durante o desenvolvimento
de um sistema, parte do trabalho que os desenvolvedores
consideram uma chatice. Imagine uma casa sem planta hidráulica.
Se o morador não tiver uma cópia, corre o risco de furar
um cano. Portanto, quanto melhor for feito o registro do
projeto original ou de suas reformas, menores serão os riscos
de falhas e, conseqüentemente, de retrabalho.
Um em cada cinco problemas ocorridos em sistemas surge na
fase da especificação, ou seja, aquela em que os profissionais
das áreas de negócios explicam o que precisam à área de
tecnologia. Outros 23% dos defeitos aparecem na hora de
definir que tipos de tela e relatório o software vai apresentar.
"Os mal-entendidos na fase de planejamento representam bateladas
de retrabalho mais adiante", afirma Dirceu Cassiano, gerente
de qualidade de processos da Eccox, empresa paulistana especializada
em programas de controle de qualidade de software.
Para evitar o problema, o modelo CMM estabelece regras simples
e óbvias, mas que não são seguidas pela maioria das empresas.
As equipes técnicas e de negócios são obrigadas a se reunir
fisicamente durante a fase de especificação. Eliminam-se
aí os telefonemas e bilhetinhos supostamente trocados e
que nunca aparecem quando surgem os pepinos. O modelo também
estabelece que a área de negócios revise e assine a especificação
elaborada pela equipe técnica. Assim, não há como argumentar
que o sistema deveria gerar determinado tipo de relatório
que, na verdade, nunca foi pedido.
Além de mirar na qualidade final do produto, esses procedimentos
também aumentam o nível de produtividade do setor. Na Stefanini,
consultoria especializada em tecnologia, os custos de desenvolvimento
caíram em 20% após nove meses de implantação do modelo em
sua fábrica de software de Jaguariúna, no interior de São
Paulo. Atualmente, a Stefanini está empenhada em implantar
o CMM em suas outras oito fábricas de desenvolvimento espalhadas
pelo país. Vale explicar que a certificação é condicionada
a uma avaliação que verifica se os profissionais de determinada
área praticam as orientações do modelo. Para conseguir a
certificação de Jaguariúna, a Stefanini treinou seus 180
funcionários por quase um ano.
Outra regra estabelecida pelo padrão CMM é a obrigatoriedade
de toda área de desenvolvimento ter um ambiente de testes.
Essa fase de homologação só foi criada nas empresas no fim
da década de 90 em virtude do bug do milênio. Motivo: testar
custa caro, pois requer máquinas e softwares que não geram
receita para o negócio. "Hoje, as empresas sérias testam
seus softwares como se fossem turbinas de avião", diz Cassiano,
da Eccox.
É claro que as empresas, especialmente as grandes corporações,
já seguiam normas próprias de desenvolvimento, mas a maioria
não era suficientemente estruturada nem abrangente. "Vivíamos
na fase do heroísmo", diz João Barroso, vice-presidente
de tecnologia da Orbitall. "A sensação é de que estávamos
sempre organizando festas sem saber o número certo de convidados.
Quando aparecia mais gente, tínhamos de correr atrás de
mais um peru de improviso."
No Centro de Desenvolvimento de Software da Xerox, localizado
em Vitória, no Espírito Santo, o jeitinho foi eliminado
há bastante tempo. A subsidiária brasileira foi a primeira
em todo o grupo a conseguir tanto a certificação de nível
dois quanto a de nível três. Com isso, o centro ganhou importância
na organização e passou de 40 para 90 funcionários. >
A necessidade de elevar a qualidade dos produtos de tecnologia
da informação tornou-se crucial no ambiente de negócios
na segunda metade da década de 90 -- principalmente depois
da explosão da internet. Hoje, a tecnologia não se limita
a automatizar processos internos de uma organização. A partir
do momento em que uma empresa se conecta à outra, depende
da qualidade dos sistemas de sua parceira e vice-versa.
Se um pára, pára o resto da cadeia. O banco Santander, por
exemplo, começou a implantação do CMM em sua área denominada
de Renovação Tecnológica. Além de aumentar a qualidade dos
produtos e a produtividade de seus desenvolvedores, o banco
pretende ampliar sua eficiência na contratação de serviços
de tecnologia. A Stefanini já encontrou essa exigência pela
frente. Há três anos, sua filial americana conseguiu seu
primeiro contrato com o Citibank nos Estados Unidos, mas
os executivos do banco deixaram claro que só incluiriam
a Stefanini em outros tipos de concorrência quando a empresa
conseguisse algum nível de certificação.
"O CMM traz para o mundo do software, tido como um habitáculo
de gênios, o ambiente mais planejado das fábricas", diz
Barroso, da Orbitall. Os departamentos de tecnologia agradecem.
Serão menos atrasos, menos estouros no orçamento e, é claro,
menos programas que "dão pau".
FUNILEIROS HIGH TECH
Os profissionais de desenvolvimento de software passam
mais tempo corrigindo defeitos do que com a inovação de
sistemas
55% do trabalho é gasto na correção de falhas de
projeto e erros de programação <
45% dos esforços destinam-se ao desenvolvimento de
novos sistemas ou à atualização daqueles já em operação
Fonte: Software Engineering Institute (SEI)
BRIGADA ANTIFALHA
Apenas 13 empresas no Brasil possuem o
certificado CMM (Alstom Transportes, Citibank, Credicard,
DBA, EDS, Ericsson, IBM, Motorola, NEC do Brasil, Serpro,
Stefanini, Tele Design e Xerox)
Nenhuma brasileira tem nível quatro ou cinco, os
mais altos estabelecidos pelo modelo
Na Índia,
71 empresas já atingiram os estágios mais avançados
As empresas levam, em média, 23 meses para conseguir
a primeira certificação
Os custos com consultoria e avaliação necessários
para a certificação não saem por menos de 200 000 reais
Fontes: ISD-Brasil/ESICenter Unisinos/Disoft
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