Veículo
Veja Rio
Seção
Negócios
Autor
Fabio Brisolla
Data
11/08/2002
 
 
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Alta tecnologia na Serra
Com empresas de informática, a região quer virar pólo tecnológico
 
 
Há um clima de euforia em Petrópolis. Não por ser inverno, estação em que a cidade é invadida por turistas. A razão para o otimismo é outra. A Microsoft e a Rational, dois gigantes americanos da indústria de informática, inauguram em três semanas centros de pesquisa e treinamento na região. Na verdade, são projetos modestos diante do tamanho das empresas.

A euforia se justifica porque a chegada das duas companhias reforça o projeto que pretende transformar a região da serra em um pólo de alta tecnologia voltado para a informática. Há outros indicadores de que o projeto caminha. Até o fim do ano, a Taho, empresa do ex-banqueiro Luiz Cezar Fernandes, ex-Banco Garantia e ex-Banco Pactual, também sediada em Petrópolis, promete lançar, em parceria com a Microsoft, um computador popular, com preço em torno de 1.000 reais.

A Taho se prepara ainda para ser a primeira empresa do mundo a alugar e permitir que o locatário baixe os filmes via internet. E tem mais. O grupo francês Accor iniciou a construção de um hotel com 140 quartos no distrito de Itaipava. Nesse caso, juntam-se o potencial turístico da região e a expectativa de que o centro tecnológico atraia cada vez mais profissionais de alto nível para lá. "Estamos na contramão do que está acontecendo no país", diz Fernando Varella, gerente executivo do projeto Petrópolis-Tecnópolis. "Nos últimos trinta meses o número de empresas com base tecnológica em Petrópolis saltou de oitenta para 160", comemora.

O plano de transformar a cidade num pólo de alta tecnologia começou em 1998 com a inauguração, no bairro Quitandinha, do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), instituição sob a coordenação do Ministério da Ciência e Tecnologia que processa as informações do Projeto Genoma. No ano seguinte, a Firjan inaugurou a Fundação Parque de Alta Tecnologia de Petrópolis (Funpat) para centralizar o projeto batizado de Petrópolis-Tecnópolis. A idéia era atrair para a região empresas de ponta, voltadas principalmente para a produção de softwares.

Um trabalho de marketing foi iniciado para convencer os possíveis candidatos a subir a serra. O primeiro passo foi destacar as vantagens da região. Localizada junto à principal malha rodoviária do país, Petrópolis está a apenas 65 quilômetros do Rio e tem todo o sistema de telefonia interligado à rede de fibra óptica. "Estamos próximos do aeroporto internacional e do campus da UFRJ", diz Varella. Para coroar o bolo, o município é cercado de Mata Atlântica e tem temperatura média amena, em torno de 22 graus. Foram estas últimas características que atraíram Luiz Cezar Fernandes para a serra há quinze anos. No ano passado, ele finalizou a transformação da cocheira de sua fazenda, no distrito de Corrêas, na sede da Taho.

Fernandes mora na Fazenda Marambaia, 400 hectares de terra que mesclam Mata Atlântica e campos verdes para a criação de ovelhas, além da sede de suas empresas . A residência é um belíssimo casarão colonial situado à beira de um lago. Distantes 1 quilômetro, trajeto que Fernandes percorre a bordo de um jipão Land Rover, ficam o heliporto e a construção de um andar onde funciona a Taho. Ali, cercados de equipamentos de última geração, dez pesquisadores desenvolvem os produtos da empresa. De início foram sistemas para navegar na internet através de sinais de rádio. Os primeiros usuários dos novos sistemas foram os moradores da Rocinha e do Complexo da Maré, dois enormes conjuntos de favelas do Rio. Em parceria com o Viva Rio, a Taho montou um centro com 25 terminais para acesso à internet em cada um. Cobra-se 1 real a cada meia hora de utilização. Foi um sucesso. "Provamos que nossa tecnologia serve para a integração, a inclusão digital", diz Luiz Cezar Fernandes. O próximo passo da Taho é o lançamento do computador popular e da locadora virtual de filmes, a Taho Vídeo. Somente esta já consumiu 50 milhões de dólares em investimento. "Uma empresa de Miami (parceira no negócio) está digitalizando 2.500 filmes, e o resto do sistema está sendo desenvolvido por aqui. De uma fazenda vai sair a primeira locadora virtual do mundo", conta Luiz Cezar.

Com a Taho, a Fazenda Marambaia tornou-se uma espécie de cartão de visitas para os investidores estrangeiros interessados no projeto Petrópolis-Tecnópolis. "Trouxe o pessoal da Microsoft aqui e ajudei a convencê-los da demanda que está surgindo na região", diz Luiz Cezar. Ele é apenas um dos integrantes da tropa de choque organizada para "caçar" investidores. No caso da Microsoft, o convite a Mauro Muratório, vice-presidente de estratégias corporativas para a América Latina da empresa, para visitar Petrópolis partiu de Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, presidente da Firjan. Poucos meses antes, Steve Ballmer, braço direito de Bill Gates, anunciara a intenção de construir centros para a difusão da tecnologia XML (linguagem que possibilita a interação de diferentes sistemas) no Brasil. O primeiro foi instalado em Curitiba. Petrópolis está prestes a ter o segundo. O centro da Microsoft ocupa 350 metros quadrados no edifício da Funpat. Terá duas salas de aula, dois laboratórios e um auditório. "Não será um negócio para dar lucro. Os objetivos estão voltados para o desenvolvimento de projetos e o treinamento de profissionais", explica Luiz Paulo Oliveira, diretor executivo do centro.

A Rational, empresa que produz ferramentas para o desenvolvimento de softwares, segue esquema semelhante e está apostando 1 milhão de reais em sua unidade de pesquisa e treinamento. "Vamos buscar profissionais na comunidade local e já firmamos uma parceria com a Universidade Católica de Petrópolis. Oferecemos ferramentas Rational à universidade, que vai nos ajudar com sua infra-estrutura de capacitação", diz Marco Bravo, diretor-geral da empresa no Brasil. Microsoft e Rational vão somar-se às seis empresas que já funcionam no prédio da Funpat. "Até o fim do ano esperamos ver ocupada toda a área de 3.000 metros quadrados e reunir 25 empresas", afirma Jonny Klenterer, coordenador de projetos especiais da Funpat. "Dois grandes investidores estão apostando em Petrópolis. Estamos consolidando agora o que há cinco anos era apenas uma idéia", avalia Eduardo Eugênio.

A cerca de 1 quilômetro do prédio da Funpat, está outra força do projeto Petrópolis-Tecnópolis, o LNCC, transferido da Praia Vermelha, na Urca, para Petrópolis em 1998. Referência nacional pelo número de pesquisadores (sessenta) e pela estrutura existente, o laboratório conta com três supercomputadores. Um deles é utilizado para centralizar todas as informações do Genoma, projeto multinacional que prepara o mapeamento do código genético humano. "Os 25 laboratórios no Brasil que trabalham nesse projeto transmitem as informações para o LNCC, responsável por toda a parte de computação do Genoma", explica Luiz Bevilacqua, professor da pós-graduação do LNCC. Toda essa movimentação, somada ao potencial turístico da região, terminou por atrair o grupo hoteleiro Accor para Petrópolis. O processo começou com a visita de uma comitiva capitaneada pela Firjan ao Sophia Antipolis, o principal pólo de alta tecnologia da França e uma espécie de modelo em escala muito ampliada para o pólo petropolitano. À visita, seguiu-se uma viagem do senador francês Pierre Laffite, idealizador do pólo francês, a Petrópolis. Foi ele que cuidou de incentivar o grupo Accor a investir na região. As obras do hotel já começaram e a inauguração está prevista para 2004. Até lá, acreditam os responsáveis pelo Petrópolis-Tecnópolis, as empresas de alta tecnologia poderão ocupar boa parte dos 140 quartos do novo hotel. Que assim seja.